oficina da luta

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Esse espaço é direcionado a todos que curtem o mundo das Lutas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

ARTIGO PUBLICADO (REVISTA EDUCACIONAL/2024)

 


OS IDEOGRAMAS NAS ARTES MARCIAIS: DESVENDANDO SIGNIFICADOS, CULTIVANDO VALORES

 O tema artes marciais na escola está presente nos parâmetros curriculares nacionais, bem como na Base Nacional Comum Curricular e outros documentos da rede pública de ensino. Essa discussão vem crescendo cada vez mais, sendo o tema muito discutido no meio acadêmico inclusive em cursos de graduação e pós-graduação em Educação Física, portanto diversos fatores contribuem para que as artes marciais sejam conteúdos abordados nas escolas. O objetivo deste artigo é chamar a atenção sobre a importância dos significados dos ideogramas japoneses em um projeto escolar de artes marciais, destacando não apenas os aspectos técnicos da prática das lutas, mas também os valores culturais e filosóficos incorporados na linguagem dos kanjis e refletir se a arte marcial tem sido abordada nas aulas de acordo com o que é proposto nos documentos oficiais. Palavras-chave: Lutas; Educação Física Escolar; Pedagogia; Aprendizagem.

 O tema lutas e artes marciais é muito amplo e pode ser abordado em muitas áreas principalmente nas aulas de história e educação física, seja pela prática ou mesmo conhecendo a sua filosofia e aplicando seus princípios de disciplina e autocontrole nas questões cotidianas. A luta é considerada uma manifestação cultural presente desde a antiguidade e transmitida de geração em geração. Por ser uma arte viva está em constante transformação adquirindo traços peculiares dependendo da época e do local onde foi desenvolvida. Não existem registros escritos precisos sobre a origem das artes marciais, desde os tempos mais antigos o homem luta, para sobreviver, para disputar territórios ou mesmo para se exercitar e por diversão. É possível encontrar pinturas nas cavernas com cenas de lutas que faziam parte do cotidiano dos povos da pré-história, também podemos encontrar a luta presente nos escritos sagrados das diversas religiões, em vasos, na literatura e outras formas de arte.

ARTE MARCIAL NOS DOCUMENTOS OFICIAIS Descrita tanto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) as lutas devem ser inseridas nas aulas de educação física escolar, sendo que arte marcial pode ser considerada um conteúdo importante no cenário escolar, pois visa preparar um cidadão crítico e solidário nos diversos momentos da vida, por auxiliar o aluno para conviver em sociedade, aprendendo a manter o controle do seu corpo e da sua mente. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1998) definem lutas como disputas em que o oponente deve ser subjugado, mediante técnicas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço na combinação de ações de ataque e defesa. Caracterizam-se por uma regulamentação específica, a fim de punir atitudes de violência e de deslealdade. No mesmo documento são citados como exemplo de lutas as brincadeiras de cabo-de guerra e braço-de-ferro até as práticas mais complexas da capoeira, do judô e do karatê. (BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Educação Física. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC /SEF, 1998. 114 p.) De acordo com a BNCC, as lutas compõem o repertório de práticas corporais a serem abordadas ao longo das aulas de Educação Física nos anos iniciais do Ensino Fundamental. A unidade temática “lutas” focaliza as disputas corporais, nas quais os participantes empregam técnicas, táticas e estratégias específicas para imobilizar, desequilibrar, atingir ou excluir o oponente de um determinado espaço, combinando ações de ataque e defesa dirigidas ao corpo do adversário. Dessa forma, além das lutas presentes no contexto comunitário e regional, podem ser tratadas lutas. As lutas podem ser estudadas na escola dentro das aulas de educação física ou mesmo em projetos interdisciplinares no contra turno, importante salientar que os projetos devem apresentar a arte marcial dentro das três dimensões: Conceitual, Procedimental e Atitudinal. Essas três dimensões estejam divididas, para melhor compreensão, na sua pratica estão conectadas não sendo possível apresenta-las de forma separada.

OS IDEOGRAMAS Nesse artigo em especial, o tema ideogramas pode ser considerado pertencente a dimensão conceitual da arte. A dimensão conceitual é aquela que dará sentido a prática, permitindo que os alunos possam refletir diversas questões desde como surgiram as diversas formas de luta, quais as necessidades dos homens em cada época bem como como a luta evoluiu de um simples confronto de sobrevivência a arte marcial que temos hoje. Conforme argumenta Neuenfeldt (2008, p. 153): [...] os alunos necessitam adquirir conhecimentos, não apenas de como fazerem exercícios físicos, de como praticarem esportes, mas de serem capazes de entender e analisar sua condição de sujeito cultural e histórico, numa sociedade que possui uma cultura de movimento da qual ele faz parte. Os kanjis são símbolos japoneses adquiridos através da China utilizados na escrita por alguns também chamados de ideograma eles são caracteres que carregam ideias e muitas vezes representam conceitos abstratos com mais de uma interpretação. Portando a caligrafia para os japoneses é como uma forma de arte. Através de único símbolo podemos expressar muitas ideias e conceitos sendo que uma única interpretação não daria conta de todos os significados. Estudar os significados dos ideogramas japoneses pode ser uma parte interessante e enriquecedora do ensino de artes marciais na escola, especialmente se as artes marciais têm raízes japonesas, como o Judô, Karatê, Aikido, entre outras. Existem várias razões pelas quais isso pode ser benéfico, a compreensão dos ideogramas japoneses ajuda os alunos a se conectarem com a cultura das artes marciais. Isso pode aumentar a apreciação e o respeito pela cultura japonesa, bem como a história e a tradição das artes marciais. Muitos ideogramas japoneses têm significados profundos e filosóficos. Por exemplo, os caracteres que compõem palavras e frases usadas nas artes marciais frequentemente se relacionam com conceitos como respeito, disciplina, perseverança, harmonia e auto aperfeiçoamento. Compreender esses significados pode ajudar os alunos a incorporar esses valores em sua prática. O ideograma japonês também pode enriquecer o vocabulário dos alunos, permitindo que eles compreendam melhor os termos técnicos e os princípios subjacentes das artes marciais. Um ponto de partida para a análise dos ideogramas poderia ser estudar os ideogramas japoneses que formam o nome das lutas por exemplo Judô. Uma das primeiras coisas que me chamam atenção ao pensar em origem de algo, é em sua análise etimológica. Principalmente em termos de arte marcial, esse sempre me pareceu um caminho nada mais que lógico. Pensemos assim: já que cada estilo de arte marcial foi criado por alguém, alguém criou um nome para identificar o estilo de luta que havia criado, ou seja, este é o momento em que o próprio autor percebe a inovação daquilo que criou. (Gustavo Goulart no artigo “Jiu Jitsu ou Jujutsu? A raiz da palavra”)

 OS IDEOGRAMAS DA PALAVRA JUDÔ:  O termo JUDÔ é formado por dois ideogramas JU (suavidade/flexibilidade) e DO (caminho) formando Caminho da Suavidade. SUAVIDADE “O ideograma JU provavelmente deriva de uma passagem no antigo tratado militar chinês, o San-Lue (San Ryaku em japonês), que remonta ao período chinês da primavera e do outono (722-481 a.C.). A passagem em questão declara "Ju yoku sei go"(柔能制 ) ou "A suavidade controla bem a dureza". Isso deu origem à ideia popular de que, para derrotar uma força mais forte, uma força mais fraca nunca deveria tentar usar resistência. Quando aplicado ao agarrar em combate próximo, isso significava que a força mais fraca deveria se submeter a ser empurrada, a fim de anular a força de ataque. Trabalhar a favor em vez de contra uma força de ataque ajudará a desequilibrar um atacante e tenderá a fazê-lo cair. ” (Serge Mol, Classical Fighting Arts of Japan) O JU ou JIU conforme a pronúncia de determinados lugares. Tem como tradução Suavidade. A suavidade é um conceito que carrega o sentido de fluidez, adaptação ou flexibilidade. O ideograma "Ju" () nas artes marciais japonesas é comumente traduzido como "suavidade" ou "flexibilidade". Segundo alguns tradutores e estudiosos esse kanji é oriundo de um pictograma antigo que representa o broto de uma árvore. A interpretação de "Ju" como um broto de uma planta é uma analogia interessante que pode ser associada a vários significados dentro do contexto das artes marciais. Aqui estão algumas maneiras de explorar essa metáfora: Assim como um broto cresce gradualmente para se tornar uma árvore, a prática do princípio da suavidade nas artes marciais envolve um desenvolvimento contínuo ao longo do tempo. A suavidade não é algo instantâneo, mas um processo de crescimento constante. Apesar de ser delicado, possui uma resistência interna. Da mesma forma, a suavidade nas artes marciais não significa fraqueza, mas a capacidade de lidar com a resistência de maneira controlada e eficaz. O broto se adapta às condições ao seu redor para crescer. Da mesma forma, a suavidade a arte envolve a capacidade de se adaptar às circunstâncias, fluindo com a energia em vez de resistir rigidamente. A pequena planta contém o potencial para se tornar uma árvore robusta. "Ju" sugere que a suavidade não é apenas uma qualidade passiva, mas pode ser uma fonte de força e poder quando usada adequadamente. O crescimento ainda pode ser associado ao conceito de "movimento não intencional" ou "não resistência". Da mesma forma, a suavidade muitas vezes envolve a ausência de resistência direta, permitindo que a energia flua de maneira natural, em consonância com o ritmo da vida. Ao incorporar essa metáfora “do crescimento do Broto” em nossas reflexões sobre o ideograma "Ju”, podemos destacar como a suavidade nas artes marciais não apenas representa uma técnica de movimento, mas também uma abordagem filosófica que abraça o crescimento, a adaptação e a harmonia com o ambiente ao redor. Podendo desta forma carregar o sentido do desenvolvimento que não é algo acelerado ou forçado. Obedece a uma lei maior, a planta obedece ao ritmo que a natureza impõe, ela cresce em direção à luz de forma lenta, silenciosa, porém constante, se desviando dos obstáculos. Que impedem o seu crescimento em direção à luz. Diz a lenda que o princípio da suavidade foi proposto por um médico oriental. Que durante um período de sua vida estava muito desanimado e não via sentido para sua vida E o trabalho? Algo parecido com o que hoje chamamos de platô. Um período de baixa produtividade em que perdemos o foco e o sentido do nosso existir. Esse médico decidiu então, dar um tempo e abandonar tudo para repensar seu propósito de vida e a estudar os princípios da dualidade Taichi, o Yin Yang. E durante esse afastamento, um dia observando a natureza em uma tarde de tempestade, notou que os fortes ramos da cerejeira quebravam com os golpes da tempestade, enquanto os ramos do Salgueiro se dobravam e dessa maneira, não se danificavam. Dessa observação surgiu a escola coração do Salgueiro ou espírito do Salgueiro, que defende como podemos ver, o princípio da suavidade que foi proposto através de uma minuciosa observação dos fenômenos naturais. A água, uma tempestade, ramos rígidos e flexíveis de uma árvore. Portanto, o ideograma “Ju” semelhante ao broto de uma planta, representa muito bem a força presente na natureza, chegando a comparar o broto com a ponta de uma lança, graças à sua capacidade de penetração. A terra é incapaz de deter o crescimento da plantinha.

CAMINHO O caminho, DO em japonês ou TAO em chinês possuem o mesmo kanji e significados semelhantes. O ideograma DO é formado por dois símbolos que nos remetem a duas figuras: uma cabeça e um pé ou uma pegada como preferir. A cabeça e pé transmitem as seguintes interpretações, o pé indicando um movimento, o caminhar, o deslocamento ou ainda progresso e a cabeça caminhando junto analisando, refletindo sobre o caminhar. O pé e a cabeça vão nos indicar a dualidade presente na arte marcial, sendo o pé ligado ao chão, a terra, a parte material ao mundo físico a luta nada mais é do que uma das formas de educar o corpo e a mente, cabeça presente no ideograma indica a ligação da arte ao mundo das ideias, do pensamento da análise. Em linhas gerais o caminho é uma experiência ao mesmo tempo prática e teórica não podemos separar a cabeça do corpo a arte marcial somente poderá ser plenamente compreendida através da prática e do tempo através da ação e da reflexão. É importante salientar a respeito do sentido amplo do caminho, sabemos que os três grandes mestres do budo, Kano, Funakoshi e Ueshiba estudaram profundamente os clássicos chineses e dessa forma a filosofia taoísta influenciou profundamente a interpretação do caminho para esses mestres, então vamos refletir alguns pontos a respeito do caminho. “O Tao que pode ser explicado com palavras não é o verdadeiro Tao. ” Tao te ching De todos os conceitos presentes na arte marcial, o mais complexo e difícil de explicar é o caminho. É um conceito tão abrangente que se torna quase impossível defini-lo em palavras, pois vai além da linguagem e se insere na vivência de cada um. O caminho é uma jornada, uma trajetória, uma experiência que nos transforma ao longo do percurso, nos desafiando a crescer e a evoluir. É um processo contínuo de ação e reflexão, de prática e pensamento, que nos conduz a uma compreensão mais profunda de nós mesmos e do mundo ao nosso redor. Portanto qualquer esforço humano para explicar o infinito seria pura perda de tempo, o caminho não pode ser explicado ele deve ser percorrido é uma experiência vivenciada é impossível para o homem explicar a vida de fora para dentro porque ele é parte da vida, seria como uma Formiga tentando entender uma Floresta, ela seria capaz somente de percorrer essa Floresta. Uma outra definição interessante do caminho é essa: o caminho é a jornada aquele que caminha e o próprio verbo caminhar, por essa explicação podemos notar que o caminhante é parte do caminho, porém o caminho vai muito além do caminhante. “Eu tive várias razões para não usar o termo jujútsu, que descrevia o que era praticado antes e optar pelo termo JUDÔ. A razão principal é que DO (caminho) é o foco principal do que é ensinado pela Kodokan, enquanto jutsu técnica é algo secundário. Eu queria tornar claro que o Judô é uma maneira de se buscar o DO (o Caminho) “ Jigoro Kano livro Energia Mental e Física – Editora Pensamento/2008. Para os antigos mestres orientais, a vida poderia ser comparada a uma viagem, uma jornada, uma trajetória. O caminho, então, seria utilizado como uma metáfora da própria maneira de viver.

CONSIDERAÇÕES FINAIS A incorporação dos ideogramas japoneses em projetos escolares de artes marciais apresenta uma oportunidade única de explorar não apenas os aspectos técnicos da prática, mas também os valores culturais e filosóficos intrínsecos às artes marciais. Nesse contexto, os ideogramas "Ju" e "Do" do Judô desempenham um papel significativo na compreensão mais profunda dessa prática milenar. O ideograma "Ju," associado à suavidade e flexibilidade, não apenas define a técnica física, mas também carrega consigo uma rica metáfora de crescimento e adaptação. Através da semelhança do princípio “Ju” com um broto de uma árvore, percebemos que a suavidade nas artes marciais não é apenas uma habilidade física, mas um princípio filosófico que se assemelha ao desenvolvimento gradual de uma planta em direção à luz. A paciência, a resistência interna e a capacidade de se adaptar são conceitos presentes nessa interpretação. Por outro lado, o ideograma "Do," que significa caminho, transcende a mera jornada física. Ele incorpora uma dualidade intrínseca, representando a ligação entre a prática física e a reflexão mental. O caminho, como sugerido pelos grandes mestres, é uma jornada de transformação contínua, uma experiência que se revela por meio da prática e da reflexão simultâneas. A dualidade do pé e da cabeça reflete a conexão íntima entre a parte física da luta e o pensamento estratégico. Ao trazer esses ideogramas para a sala de aula, os educadores têm a oportunidade de enriquecer o entendimento dos alunos sobre as artes marciais, incorporando elementos culturais e filosóficos. Compreender os significados dos ideogramas não apenas fortalece a conexão com a cultura japonesa, mas também promove a internalização dos valores essenciais, como respeito, disciplina e auto aperfeiçoamento. A arte marcial vai além da prática física; ela se torna uma ferramenta para o desenvolvimento integral do indivíduo. A suavidade e o caminho, representados pelos ideogramas, oferecem uma visão holística da prática, incentivando os alunos a não apenas dominarem as técnicas, mas também a incorporarem os princípios fundamentais em suas vidas diárias. Ao final, o projeto escolar de artes marciais, com foco nos ideogramas, destaca-se como uma abordagem educacional que transcende os limites físicos do tatame, proporcionando uma experiência enriquecedora que se estende para além das habilidades técnicas, transformando-se em uma jornada de crescimento pessoal e cultural. Referências BRASIL. Ministério da Educação. Base nacional comum curricular. Brasília: MEC/SEB, 2017. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Educação Física. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC /SEF, 1998. 114 p. SIMPKINS, C. A.; SIMPKINS, A.M. Confucianism and the asian martial traditions. Journal of Asian Marcial Arts, v. 16, n. 1, 2007. Ferreira HS. As lutas na educação física escolar. Fortaleza – CE. Revista EF. 2006; 4(135):36-44. Três Mestres do Budo - John Stevens (Autor). Editora Cultrix Eico Suzuki O pai da Educação Integral e o universo do Judô /– Ed, Luz e Silva/SP Stanlei Virgilio, A arte do Judô / Campinas SP, Ed. Papirus 1986. KI E O Caminho das Artes Marciais: KI E O Caminho das Artes Marciais 2012 por Kenji Tokitsu (Autor) Marcelo Rosseto, Derli Juliano Neuenfeldt O ENSINO DE ARTES MARCIAIS PARA CRIANÇAS: UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA UNIVATES, revista Jigoro Kano livro Energia Mental e Física – Editora Pensamento/2008. Gustavo Goulart https://www.budokast.com.br/post/jiu-jitsu-ou-jujutsu-a-raiz-da palavra. ACESSO: 01/01/2024 DARIDO, S. C. Os Conteúdos da Educação Física na escola. In DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. (Coord.). Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005. NEUENFELDT, Derli Juliano. Esporte, Educação Física e Formação Profissional. Lajeado: UNIVATES, 2008 Anízio A.S.  Júnior

Revista SL Educacional, São Paulo, v. 6, n. 01, p. 1-283, janeiro. 2024 105

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O CAMINHO COMO METÁFORA DA VIDA - A JORNADA DO BUDÔ

              

                                             


Quando queremos explicar algo profundo ou difícil de entender, muitas vezes usamos imagens conhecidas. É aí que entra a metáfora.

Metáfora é uma forma de explicar uma coisa usando outra, mais simples e familiar.

Não é uma explicação literal, é simbólica.

Por exemplo: Dizer que alguém está “carregando um peso” não significa, necessariamente, um peso físico, mas problemas, dores ou responsabilidades.

Dizer que alguém “encontrou a luz” não quer dizer que acendeu uma lâmpada, mas que passou a entender melhor a vida.

A metáfora traduz o invisível em algo visível.

Quando falamos que a vida é um caminho, não estamos dizendo que ela é uma estrada de asfalto. Estamos usando uma metáfora poderosa para falar da existência humana.

Pense bem: Todo caminho tem um começo. Tem escolhas de direção. Tem subidas e descidas. Tem obstáculos, desvios e atalhos. Às vezes andamos acompanhados, às vezes sozinhos.

E todo caminho leva a algum destino

Assim também é a vida.

Desde o nascimento, estamos caminhando. Cada decisão que tomamos é como uma encruzilhada. Algumas escolhas facilitam o trajeto, outras tornam o percurso mais difícil. Há momentos de cansaço, momentos de alegria e momentos em que precisamos parar, refletir e recomeçar.

O sentido profundo do caminho

O caminho não fala apenas de onde queremos chegar, mas de quem nos tornamos enquanto caminhamos.

Duas pessoas podem estar indo para o mesmo lugar, mas vivendo experiências completamente diferentes, dependendo das escolhas, da postura e da consciência que têm durante o percurso.

Por isso, falar de caminho é falar de: Aprendizado e Transformação

A vida não é algo pronto. Ela se constrói passo a passo.

A metáfora do caminho nos lembra que: A vida não é estática e ninguém fica parado, sempre estamos em movimento, mesmo quando não percebemos

E mais importante: não somos apenas passageiros da vida, somos caminhantes. Cada passo conta. Cada escolha molda quem somos e quem nos tornaremos.

Entender a vida como um caminho nos convida a caminhar com mais atenção, mais consciência e mais sentido.

 

Nas artes marciais, os grandes mestres do Budo trocaram o termo Jutsu (arte) pelo sufixo Dō que é traduzido como Caminho. Esse detalhe é muito importante. Porque quando nos referimos a Judô, Karatê-dō ou Aikidô, não estamos falando apenas de luta ou técnica, mas de uma forma de viver.

O caminho não é um lugar onde se chega. É algo que se percorre todos os dias. Assim como na vida, ninguém acorda pronto. A gente treina, erra, aprende, cai e levanta. O valor não está em ser perfeito, mas em continuar caminhando.

Dentro do tatame, o adversário não serve apenas para ser vencido. Ele revela quem somos: nossos medos, nossa pressa, nosso ego. Fora dele, a vida faz o mesmo. As dificuldades aparecem não para nos destruir, mas para mostrar onde ainda precisamos crescer.

O Dō também ensina disciplina. À primeira vista, regras e repetição parecem limites. Com o tempo, percebemos que elas trazem liberdade. Quando temos direção, o caminho fica mais claro. Na vida, valores e princípios cumprem esse papel.

Outro ponto importante é a união entre corpo, mente e espírito. A técnica vazia não sustenta o caminho. Assim como viver sem propósito enfraquece qualquer esforço. Caminhar no Dō é tentar alinhar o que fazemos com o que pensamos e com quem somos.

Talvez a maior lição seja a humildade. Mesmo o mestre continua sendo um aprendiz. Não existe fim no caminho. Crescer é manter a mente aberta, aprender sempre e seguir com respeito.

 

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segunda-feira, 31 de julho de 2023

IDEOGRAMAS DA PALAVRA "KARATÊ"

A algum tempo tenho estudado sobre os ideogramas que formam as artes marciais japonesas BUDÔ.

Achei muito interessante o artigo desse autor que vou transcrever abaixo com a devida referência:

OS PIONEIROS DO TODE/KARATE (MÃO CHINESA)

FROSI, Tiago Oviedo.  Porto Alegre: Núcleo de Apoio à Educação à Distância - NAPEAD UFRGS

Curso de Extensão em Karate-Dō UFRGS

A maioria das pessoas quando inicia o treinamento do Karate-Dō, do Judō, do Aikidō ou de qualquer outra arte marcial japonesa (Budō) se pergunta o que essas palavras do idioma nipônico significam. Quando pesquisamos na internet ou mesmo em muitos livros (incluindo aí obras importantes como os volumes de Nakayama sensei), encontramos a tradução Karate = Mãos Vazias. De fato o primeiro ideograma (Kanji) para Karate é Kara (), a Vazio, e tem muitos usos. Um dos usos é a designação de um espaço vazio comum, uma vaga de estacionamento livre, por exemplo. Porém é também usado na Filosofia Oriental, especialmente no Budismo, como designação para o mais profundo estágio e nível da Consciência ou da Totalidade, o Anel do Vazio ou Kuurin (空輪). Quando escreveu os livros Karate-Dō Kyohan e KarateDō Nyumon, na primeira metade do século XX, Funakoshi Gichin sensei deixou bem claro que era a esse “Vazio Espiritual” que se referia, afirmando entre outras coisas que, para alcançar o verdadeiro domínio da arte, o karateka precisava livrar-se dos desejos, dos apegos e das suas limitações internas. Estava diretamente influenciado pela filosofia budista. No Ocidente, a Psicologia chamou esse processo de “integração da Sombra”. Este é, portanto, a primeira razão pela qual não devemos pensar em Karate como mãos vazias ou livre de armas, como muitos propõem.

O próprio Funakoshi sensei nesses livros refuta esse significado. Ao entrar no tópico de que Karate é a “arte das mãos vazias”, em que não se usam armas, caímos na segunda questão: não se usa mesmo nenhuma arma no treinamento de Karate-Dō? Ora, usa-se! São as armas tradicionais do Okinawa Kobudo, também usadas na China e, conforme os mitos, inspiradas nas ferramentas rurais. Quando começou a lecionar no Japão, Funakoshi sensei ensinava o uso do Bo (bastão longo) e Sai (gancho de três pontas, ou ancinho), além de usar outros equipamentos relacionados às práticas com armas que são as ferramentas de enrijecimento corporal (Tanren). Por razões políticas (o Japão já tinha seu Kobudo, que empregava a Katana, a Naginata, o Kyu, o Yari e outras armas), a Nihon Karate Kyokai (depois JKA) excluiu o treinamento com armas dos currículos do Karate e passou a defender a tradução do nome “Mãos Vazias” associado ao não uso de armas. Mesmo com essa jogada que dominou a mente de muitos praticantes por anos, outros estilos como Goju-ryu, Shito-ryu, Ryueiryu e muitos outros, além de dissidências dentro do próprio Shōtōkan, mantiveram o treinamento de Kobudo (Caminho das Armas Antigas) associado ao Karate-Dō. Sendo assim, para defender tanto a memória do trabalho de Funakoshi sensei quanto os fundamentos vitais do Karate original, há muitos anos venho defendendo que se abandone a tradução “mãos vazias” e passemos para a tradução mais adequada “Caminho das Mãos do Vazio”. Essa tradução nos lembra que trilhamos uma senda (Dō) em que, através do aperfeiçoamento de nosso corpo, de nossas mãos e técnicas (Te), chegaremos à evolução de nosso caráter e também avançaremos espiritualmente, pois temos uma meta, que é nos aproximarmos desse Vazio (Kara). A mensagem por trás da mudança do nome Karate (唐手 = mãos dos Tang/China) para Karate-Dō (空手道 – Caminho das Mãos do Vazio) pretende sugerirnos que trilhemos um caminho integral, desenvolvendo corpo, mente e espírito, dentro da tradição japonesa do Budō

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O QUE É OFICINA DA LUTA ?

      A iniciativa "OFICINA DA LUTA" tem como 
proposta principal  aproximar as pessoas ao universo das Artes Marciais, através de treinos, pesquisas, palestras, oficinas, encontros, apresentações, produção de textos , fanzines, e disponibilização de material na internet.
  Procuramos apresentar a arte marcial obedecendo o princípio da Totalidade, considerando-a como um todo indivisível formado por diversas modalidades diferentes com suas respectivas historias , culturas, expressões , tradições e códigos.
As diversas lutas se relacionam, se completam, se adaptam e se transformam no decorrer do tempo.



NOSSO MASCOTE "O COISA"
(a forma pejorativa como eramos conhecidos no início do nosso trabalho) 


       Atualmente nos reunimos em um espaço independente onde se  pratica de forma eclética diversos métodos e estilos de Lutas e Artes Marciais colhidos em diferentes fontes. 
Em um único dojo professores de diversas lutas ensinam com liberdade os seus conhecimentos e alunos aprendem sem distinção diversos estilos.
             Quando grafamos "atualmente" em negrito foi para destacar que nem sempre a oficina teve esse formato de hoje. Desde que ela surgiu como ideia assumiu diversas formas até chegar ao formato que estamos hoje. 
                A principio começamos a expressar nossa visão em fanzines, a desenvolver nossos encontros e treinamentos em igrejas, clubes, espaços culturais, escolas e salões da prefeitura. Até 2019 não tivemos uma sede fixa. 

                                                          Por que Oficina?

O nome "oficina" já provoca essa pergunta," o que é oficina?" porque não chamamos de academia, ou porque não nos definimos como uma equipe ou como dizem atualmente um  "Team"? 
Primeiramente porque priorizamos valores diferentes, a oficina tem a ver com a própria etimologia dessa palavra “Oficinae” do latim lugar onde se elabora ou se fabrica algo, transmite a ideia de uma criação artesanal “um a um” diferente da produção industrial em larga escala. O produto carrega as digitais de quem o criou, como as oficinas da idade média, caracterizada pela simplicidade .
Na palavra oficina está presente o radical “Opus”, ou seja, obra ou trabalho, e cinae (um fazer). Lá na oficina cada artista realiza a sua obra. Lá ensinamos, aprendemos, transformamos e somos transformados. Para nós que fazemos parte dela acreditamos que vai muito além de ser uma equipe ou academia.
Com disse anteriormente contamos com vários faixas pretas de diversas modalidades ensinando , alunos que transitam por diversos estilos e em determinados dias nos reunimos e treinamos "luta livre" híbrida com golpes de várias lutas diferentes.
Nascemos livres e pretendemos continuar a ter essa liberdade aprender, livre de amarras chamadas de "estilos". 
BRUCE LEE - uma das nossas inspirações 
                                    
 “Absorva o que for útil, rejeite o que for inútil. Acrescente o que é especificamente seu. O homem, criador individual, é sempre mais importante que qualquer estilo ou sistema estabelecido. ” (BRUCE LEE)







EQUIPES 







LINK:








sexta-feira, 24 de julho de 2020

MANIFESTO - OFICINA DA LUTA


"O caminho do guerreiro na pós modernidade - seus desafios e oportunidades " 
 
 Dirigimos essa mensagem a todos os praticantes , simpatizantes , leigos, ou qualquer pessoa que tenha no mínimo curiosidade sobre as artes marciais com a finalidade de refletir como será o futuro das artes marciais, após esse momento marcante da nossa história. 

Quero escrever esse texto talvez como uma cápsula do tempo, onde futuramente possamos olhar e ver quanto acertamos e quanto estávamos errados ou mesmo tentar entender o momento que vivemos hoje.
Em primeiro lugar de agora em diante passo a tratar esse conceito como Arte Marcial no singular e não mais artes marciais (no plural), pois acredito que a Arte Marcial é um “todo” indivisível porém que se apresenta na forma de  diversas modalidades.
A Luta para mim é apenas um aspecto da Arte Marcial, como já disse um sábio uma vez "a arte marcial é tão completa que serve até para lutar" se referindo que ela pode ser dividida em luta , esporte, diversão, exercícios, sobrevivência, cultura, história, etc.
Bruce Lee em uma entrevista para TV afirmou: -Eu não ensino Karatê porque não acredito mais em estilos. Não acredito no modo de luta chinês ou no japonês. A menos que tivéssemos três braços e quatro pernas, poderia haver diferentes formas de combate. Os estilos tendem a separar os homens porque eles têm suas próprias doutrinas, e a doutrina se torna uma verdade que você não pode mudar. Dizem que ele próprio se arrependeu de dar nome ao seu estilo preferindo chama-lo de ARTE MARCIAL simplesmente.
Uma vez uma professora me disse se referindo ao ensino
da  Matemática: _ Rapaz ou você vê a floresta ou você vê a arvore! Ou seja, em enxergar o Todo ou as partes uma a uma. Ela queria dizer que poderia passar o ano todo ensinando por exemplo “Frações” e não esgotaria o assunto, mas onde ficariam as equações, as formas geométricas , os gráficos ,  a Probabilidade, Porcentagem,
 etc . Que eu deveria fazer esse exercício de enxergar o todo e cada uma das partes. Trabalhando esse processo de construção e desconstrução o tempo todo. Ou mesmo como uma Exegese Bíblica do geral para o particular, e do particular retornando ao Geral.
Semelhantemente os estilos são fatias da Arte Marcial, acho que era isso que Bruce Lee queria expressar. 
 Vamos então pensar no todo para chegar nas partes.
A luta na forma livre é tão antiga quanto ao homem, podemos afirmar com certeza que em todas as épocas e em todas as culturas o homem sempre lutou e pelos mais variados motivos para se defender, para ampliar seus territórios, para se exercitar ou mesmo para se divertir. A luta faz parte da cultura de todos os povos e de todas as épocas.
As origens mais remotas da arte marcial são da pré-história, quando o homem primitivo, de uso de um pedaço de pau, pedra, ou osso, se defendeu de animais selvagens ou de algum inimigo.Foram encontradas pinturas rupestres de Lutas (homens das cavernas - Mesolítico). As técnicas de lutar  foram se aperfeiçoando gradativamente e transmitidas às gerações posteriores. Métodos mais eficazes de guerrear foram criados, estudados, aperfeiçoados e ensinados durante toda a história da humanidade. Em alguns textos anteriores defendi a idéia de que não houve um único centro gerador da arte marcial e sim que foi pipocando em diversas partes do mundo nos mais variados povos e nas mais variadas épocas, não tendo necessariamente relação entre si ainda que eventualmente isso pudesse ocorrer porque o homem também viaja e entra em contato com outras culturas. A questão dos nomes das lutas também é um caso a ser discutido por exemplo:
JUJUTSU era um nome genérico para diversas formas de lutar no Japão antigo, existiam então centenas de escolas diferentes , com sistemas diferentes porém com um mesmo nome jujutsu, o mesmo podemos dizer do KUNG FU um nome genérico para diversos estilos de luta chineses, sendo que existem inclusive estilos que são praticados por famílias no quintal de casa . Alguns tempos atrás o saudoso mestre Naja disse em entrevista que quando morou na Tailandia observou que o ensino de Muay  Thai era realizada em pequenas células . Uma disputa na justiça pela marca Krav Maga chegou a seguinte sentença que krav maga é traduzido como defesa pessoal portanto ninguém possui como marca.
Enfim muitos praticantes querem defender que o seu estilo é o mais tradicional, ou verdadeiro ou mais eficiente pois a Arte Marcial também disputa um mercado. Mas como nos comportar diante dessa polaridade?
Acredito que como praticante de Arte Marcial devemos ter dois Olhos.
Vou explicar .
Um olhar voltado para trás, ou seja,  para a Tradição , para o nosso passado, com profundo respeito aos nossos  mestres e a história da sua escola. Não existe arte marcial sem o legado dos povos antigos e toda a sua contribuição para o que temos hoje.     

Mas também ter um olhar para frente para o novo, para tudo que tem surgido. Com a criação do UFC houve uma verdadeira mudança no modo de pensar das pessoas, muitos notaram que para enfrentar um desafio daquele era necessário estudar mais que uma modalidade marcial, hoje é quase senso comum que estudar um único estilo é ineficiente para esse tipo de combate.
O treinamento cruzado de vários estilos de luta que no passado era tratado como verdadeira traição hoje se faz necessário para quem que lutar no MMA. Podemos afirmar que a Arte Marcial está em constante evolução. Um método de defesa pessoal dos anos 50 não é mais eficiente nos dias de hoje pois o comportamento do homem também mudou.
 “ Não existe nada fixo na arte da guerra”.
Portanto defendemos que de agora em diante devemos ter esses dois olhares : reverência ao passado e mente aberta para o novo.
 Tudo indica que o conhecimento será Híbrido .
Basta ver como a nova geração se comporta diante da informação. Eles se informam mudando de canais , transitando de um conteúdo para outro formando uma verdadeira colcha de retalhos, a mesma coisa tenho visto com jovens em relação aos estilos de arte marcial . Tenho alunos que apesar da pouca idade já passaram por capoeira, jiu jitsu , karatê , etc. Por alguns é visto como um diletante, um entusiasta que ainda não se encontrou em nada, porém eu não vejo desse modo, porque eu acho que quem busca a verdade com sinceridade e não com interesse de vantagem  pessoal terá que fazer esse caminho. Eu particularmente sempre percorri essa trilha.


Outro dia um mestre me disse que havia desistido porque essa geração não quer nada. Será que não quer nada? Ou não quer o que está sendo oferecido?
Taí a necessidade de exercitar os dois olhares.
Estaremos preparados para encarar o sistema híbrido de luta? Ou estaremos presos as nossas verdades, fixas e imutáveis?
Vejo que esse movimento já vem tomando forma na internet posso citar canais famosos com Núcleo Dharma, Kav Maga Caveira, e outros que já tem essa visão aberta e progressista da luta. 
O modelo será descentralizado.

Hoje completa 4 meses que estamos em quarentena no Brasil, todas as escolas e academias estão ainda fechadas, as pessoas em sua maioria em isolamento social. O nosso centro de artes marciais está fechado e estou terminando a minha pós graduação em treinamento em artes márciais mistas.  É um tempo onde muitos pensadores dão suas opiniões de como será o recomeço ou como muitos estudiosos passaram a se referir o novo normal.

Descentralização Talvez aí esteja o ponto mais polêmico do meu texto. Vou apelar o tempo todo para o princípio da dualidade, lembrando que um grande perigo é o de tomarmos um determinado partido ou se tornar radical defendendo com fanatismo um lado em detrimento do outro.

Até que ponto podemos seguir um caminho totalmente independente dentro da nossa arte marcial?

Se por um lado ninguém consegue praticar arte marcial sozinho porque sempre precisamos do outro para aprender, para treinar e até mesmo para competir para ver em que nível nós estamos enquanto eficiência, por um outro lado o último degrau de evolução dentro da arte é o da “liberdade” ou “RI” (separação), assumindo o  seu estilo pessoal.

Um dos grandes debates dos dias atuais dentro da Internet é sobre a existência das Federações e Confederações, onde a questão principal é: DEVO ME FEDERAR? Ou ainda, QUAL É O MEU PRINCIPAL OBJETIVO EM ME FEDERAR?

Bom vamos começar analisando a função da federação (e consequentemente das confederações). As principais finalidades de uma federação seria a divulgação do esporte, sua organização e a promoção de eventos e campeonatos. Até aí sem problemas, porém vamos lembrar que não existe uma única confederação, vou tomar como exemplo o Jiu Jitsu, em se tratando de Confederação temos: CBJJ, CBJJE, CBJJO, CBJJD, CBJJP, CBJJT, CBJJ&J e outras que desconheço. Federações então dezenas. Que pelo conflito de interesses, não existe consenso entre as entidades e a realização de torneios independentes e periódicos não preveem uma disputa para unificação de títulos. Existem questionamentos sobre as cifras arrecadadas com a realização de campeonatos, onde não se demonstra investimento no crescimento do esporte, já que seria uma obrigação das federações, segundo os estatutos.

Agora vamos supor que existisse somente uma única Confederação, nesse caso, poderia surgir um outro problema, sendo ela “única” poderia se tornar arbitraria ou mesmo autoritária e não mais atender ao interesse coletivo. Ou mesmo se associar politicamente com pessoas com má intenção.

 Você consegue perceber como é complicada essa questão???

Ao mesmo tempo que precisamos competir ou mesmo entrar em contato com outras escolas, a nossa escola muitas vezes prioriza valores diferentes das demais escolas.

Imagine campeonatos que terminam em palavrões ou mesmo em pancadarias o prejuízo que causa para um DOJO por exemplo que tem o ensino voltado para crianças.

Portanto volto a declarar que existem escolas para todos os gostos e para todos os bolsos. Devemos então quando buscar uma escola ter muito bem definido qual é o nosso objetivo: quero competir, desejo me tornar um campeão mundial? Ou apenas quero treinar para me exercitar e ter uma qualidade de vida, por recreação, ou ainda, para buscar pertencimento a um grupo que compartilha um mesmo estilo de vida, atividades e interesses similares. Tudo isso deve ser considerado.

E a escola também definir qual tipo de pessoa ela quer agregar. Isso deve ser muito bem conversado.

Pesquise na Internet sobre os tipos atuais de Jiu Jitsu (Old School, New School, American JJ, BJJ, Gracie JJ, Tradicional, e muitos outros menores) se você acha pouco saiba que no Japão antigo existiam mais que 700. Ou mesmo que nos anos 80 e 90 cada esquina tinha um estilo de Karatê diferentes em tudo.

Acredito que a arte marcial por ser muito ampla vai conseguir abarcar todos os tipos de interesses no futuro.

Por esse motivo eu alertei no início que estávamos diante de uma DUALIDADE, da mesma forma que precisamos ter contato com outras escolas para compararmos ou mesmos testarmos nossos conhecimentos, por outro lado precisamos nos distanciar para defender nossos valores e prioridades, precisamos das confederações desde que elas não se tornem autoritárias ou abusivas.

Necessitamos dos nossos mestres mas devemos nos lembrar de um princípio importante do Budô que é o:

 

SHUHARI

Shuhari significa:

Shu ou Obedecer: esse é o momento em que o aprendiz precisa ser humilde e robótico, e obedecer quais são os principais pontos que devem ser seguidos (também conhecidos como regras). É quando ele precisa repetir o que o mestre diz sem utilizar muito do pensamento crítico durante o processo. É o foco em seguir cegamente técnicas validadas.

Ha ou Desviar: nesse segundo momento, o aluno passa a quebrar pouco a pouco as regras anteriores, ainda com o resultado final em mente. É o momento em que a teoria e o conhecimento passam a desafiar as técnicas, e os princípios passam a ser o diferencial para a evolução do conhecimento.

Ri ou Separar: nesse momento não existem mais técnicas, princípios ou conhecimento útil que não venham de fora da mente. A partir de agora, as atividades são executadas de forma natural, a evolução dos processos e do conhecimento surgem do indivíduo e temos inovação e quebra de paradigmas.

28.09.2020 

A oficina da luta é conceitual, ela é uma ideia, não se trata de uma instituição, não temos sede fixa, estatutos, funcionários etc. O encontro de pessoas que curte arte marcial, a troca de conhecimento, as parcerias, e a discussão de temas é que formam isso que chamamos de Oficina. O movimento surgiu por volta do ano de 2010, de maneira quase espontânea, em um momento em que um grupo de educadores resolveu criar um movimento cultural que envolvesse a criação de Cineclube, Grupos de Teatro e Danças, Cafés Filosóficos, Feiras Literárias e outras manifestações locais , dentro deste caldeirão cultural que estava se formando pediram ao Prof. Anízio Jr que apresentasse uma proposta envolvendo a Arte Marcial , oportunidade em que apresentou um conjunto de ideias que acabou na formação da iniciativa “oficina da luta” que  tinha como proposta principal  aproximar as pessoas ao universo das artes marciais, através de treinos, pesquisas, palestras, laboratórios, encontros, apresentações, produção de textos , franzines, e disponibilização de material na internet.

Desde que surgiu a oficina assumiu diversas formas até chegar ao formato atual. A princípio expressando sua visão sobre as lutas, em fanzines, e desenvolvendo seus encontros e treinamentos em igrejas, clubes, espaços culturais, escolas e salões da prefeitura. Até 2019 não teve uma sede fixa.

A oficina da luta se dedica a praticar livremente e de maneira eclética todos os tipos de técnicas de autodefesa, contando atualmente com vários colaboradores de diversas modalidades de lutas, ensinando e aprendendo diversos estilos e formas diferentes. Com total liberdade para trocar experiências, livre de amarras chamadas de "estilos".

Não possuimos nenhuma linhagem clássica ou hierárquica, apresentamos uma estrutura descentralizada, horizontal, sem chefe ou estatutos escritos. Nosso objetivo principal é formar uma grande comunidade de pessoas com ideias semelhantes se ajudando através da troca de conhecimentos, sempre buscando mecanismos para que as pessoas se conectem e construam relacionamentos saudáveis ​​com base na amizade, treinamento e respeito mútuo, independentemente da categoria na faixa.

Apesar de se considerar um Grupo Independente, sem levantar bandeira de nenhuma equipe ou ideologia, com autonomia nas tomadas de decisões e livres de qualquer influência, atualmente tem seu trabalho reconhecido por várias Comunidades Marciais e Associações recebendo diversos selos e certificados. 


terça-feira, 14 de julho de 2020

Reabrir ou não as academias de LUTA durante a pandemia?




Como vimos nesse final de semana as academias foram autorizadas a funcionar desde que seguindo um rigoroso protocolo (distanciamento, aulas agendadas, horários, % de alunos).
Desde o anúncio da medida os professores me procuraram dizendo que o telefone deles não parava de tocar, muita gente perguntando qual seria a nossa posição. Após analisarmos ponto a ponto cada parte do protocolo cheguei a seguinte conclusão: ”NÃO É POSSIVEL RETORNAR AOS TREINAMENTOS NESSAS CONDIÇÕES”. O nosso centro permanecerá fechado.
Essa quantidade de exigências indica que ainda não é seguro voltar, imagine treinar luta com máscara fechando boca e nariz, sem poder se aproximar, a respiração ofegante nos obrigaria a se afastar por mais de 5 metros, arte marcial sem nenhum contato físico? Isso se os alunos se sentissem seguros para ir ao tatame, sabendo que as suas escolas permanecem fechadas.
Essa flexibilização é mais pela questão econômica do que pelo problema ter sido solucionado. Durante esses mais de cem dias fechados, o governo sofreu muita pressão por parte do setor para que as academias voltassem a funcionar.
Um dos argumentos utilizados é que “o esporte faz bem a saúde”, isso ninguém tem dúvidas. Uma vida esportiva é saudável, ou melhor, uma trajetória de vida e não tentar iniciar um treinamento agora no meio do contágio de uma doença, isso faria se debilitar e se tornar mais propenso a ela. Devemos tomar muito cuidado com os argumentos que tem sido colocados porque tem muito interesse envolvido.
Resumindo, tenho pedido paciência aos alunos, que nessa época procurem ler e estudar a parte teórica das Artes Marciais. Se apropriarem da Pena e não da Espada, porque não dedicar tempo a Literatura , a Arte, a História e a Matemática.
“Triunfam aqueles que sabem quando lutar e quando esperar” (A paciência é uma das maiores virtudes exploradas nas frases do milenar livro A arte da Guerra de Sun Tzu. Por meio dela, algumas vitórias decisivas virão no tempo certo e com a recompensa certa.
Queria que vocês soubessem que estamos estudando profundamente como será a nossa volta.
Com certeza nossa Arte Marcial sofrerá muitas transformações e adaptações necessárias para continuar a existir nesses novos tempos. Assim como outros animais, um indivíduo somente sobrevive quando se adapta a um ambiente. Isso inclui as pessoas, o movimento local e as tendências.
Seja forte e corajoso meu irmão. Deus é contigo.

                                                                            ( Sensei Anízio Jr)